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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Infância

Ensinar e aprender a desconstruir é preciso ter construído

Isabella Castro em 13-03-2013

Falar sobre a infância é assunto peculiar. Primeiro, porque é lá que estão as partes mais importante de nós, aquelas sobre as quais se edifica o restante do edifício. Segundo, porque grande parte da infância cai em amnésia e não conseguimos dela recordar.
  
Falar sobre infância exige, no mínimo, frequentar os traços de memória que nos levam e nos trazem de lá. Lá onde era lícito perguntar como é viver, como é amar, como é esquecer, como é perdoar. Com a esquisitice da vida adulta começamos a calar as perguntas e a achar que sabemos, que portamos o saber. Passamos a saber “tudo”: de onde vem os bebês, para onde devemos ir, o que temos que fazer, quanto tempo devemos dispensar ao dever e ao lazer, se é que se pode chamar de lazer aquelas férias prolongadas arrematadas num pacote de dez cifras anuais onde tudo está mais ou menos previsto! Assumimos inescrupulosamente a honra de transmitir o porvir, espécie de lugar de Deus. Tal empáfia é necessária, senão como poderíamos “ensinar” nossos filhos a andar, falar, amar? É em função de uma perpetuação da espécie que seguimos, portanto, a assentar as poltronas de sabichões. É em função da manutenção da civilização que aprendemos a trocar uma parcela de felicidade por uma outra de segurança, como ensina Freud. No entanto, o preço vem se aproximando e nos mostrando os resultados de uma sociedade desubjetivada, acéfala de sujeito, carente de autores e criante de meros espectadores. Olho que te vê da sacada ao lado,  as redes sociais exibindo realidades opostas aos fatos reais, os adolescentes assentados em uma mesma mesa cada um com seu iphone em operação, as músicas intoxicadas de mera distração, sem letra e sem emoção; e as crianças amarradas pela tela das janela condominais (maconimiais?) são diagnosticadas como portadoras de transtorno de déficit atenção! Sem zelo engolem ritalina para acalmar seus pais, não menos expectadores em dificuldades.

O que fazer? Ajuda é sempre bem vinda, só não vale atrapalhar, só não vale sequestrar ainda mais o verbo, deixá-lo calado, sem perguntação, como se prestam muitas falas em nome profetizadas, arraigadas de verdade póstumas de tão absolutas. Precisamos deixar falar o que vem de lá... não, não é fácil, mas é preciso atenção com o fato de que a pulsão de morte é silenciosa! Deixar uma criança perguntar remexe o seu próprio saber, seu próprio querer, porque ela vai falar.  Vai te dar a chave e ai de você se não estiver preparado para o banquete farto de linguagem em operação, que sempre gera equivocação.

“A angústia é o afeto que não engana”. (Lacan) O que fazer diante dela? Outra questão. Tem gente que faz arte, tem gente que faz ciência, tem gente que faz apenas enrolação. Se enrolando no próprio corpo enquanto o copo entorna, contorce a nuca, os ombros, as costas, cai de cama num eterno sofrimento psicossomático, a isto incluem as crianças. Há pesquisas - embora eu desconfie sempre de dados emocionais classificatórios, pois cada pânico é único - que afirmam que as mães que conseguem pouco contato com seus filhos, seja ele o do seio, o do olhar, o da voz, estariam mais propensas a formar indivíduos autistas. Mas a sociedade atual está vivendo um momento autista, a nossa sociedade padece há algum tempo de falta de comunicação. Claro, sabemos que a comunicação é apenas um mal entendido, mas estamos fadados a não deixar de tentar. É nosso dever, nossa ordem fazer falar, e de preferência que isso seja feito no lugar adequado, apropriado para. O que acontece muitas vezes é que os pais das crianças não suportam entrar em contato com as próprias angústias e vão disparando nelas, já não tão inocentes depois de Freud, mas abertas ao novo, um mundo de ódio, frustração, cansaço, decepção! Um mundo assegurado e tão, tão inseguro. Este é um ponto muito crucial, o que cada um dá conta de fazer das próprias angústias.

Outro ponto importante é a questão da quantidade e da qualidade de tempo. Sabemos muito bem que não temos mais tempo de ter tempo. Chegamos a esse absurdo, mas é um fato, aí de repente chega uma mãe culpada porque decidiu dar D.E.(dedicação exclusiva) ao filho e este não corresponde às suas expectativas. Devagarzinho vamos à sua vida, sua rotina, suas fantasias e encontramos uma mulher amargurada porque passa absolutamente 24 horas de frente para uma criança, alimentando-a sem alimentar, dando-lhe banho sem se molhar, ensinando-a a ser limpinha , comportadinha, MAS que não a olha nunca. Dá beijo de repetição, sem empolgação, não observa as mudanças, não aceita os gostos, mas, claro, ela está lá, mesmo não estando bem consigo mesma. Esqueceu-se dela. Como pode fazer feliz alguém sendo que sua maior expectativa é a novela da globo? Lá, através dos personagens, ela vai usar uma calcinha bem sexy, vai tomar um porre, vai dançar e vestir especiarias, pois na vida real ela vive na miséria, não tem propriedade de si, envelheceu seus sonhos e se pôs a ser modelo de D.E. de alguém. Como é possível tanta cegueira? Cada sujeito deve ser livre, e para isso deve ser o mais honesto possível consigo mesmo. Também não é fácil, hein! Mas quem disse que o mais fácil é o mais saboroso? A vida não é uma questão de decisão, mas de intervenção diária em nossa caixinha particular de surpresas. Qual é mesmo o sabor do sorvete que gostamos? A cor preferida, o tipo de filme, os amigos. Essas especiarias que se tornam esquecidas com a pose adulta, como se ser adulto fosse triste.

É por ai mesmo que podemos chegar até aqui onde estamos esta noite, na Escola Espaço Criativo. Foi por esta porta que entrei: o melhor lugar é ser feliz! Não sei quem criou esse slogan para a escola, mas seja quem for foi muito FELIZ. E quero dar aqui o testemunho de que eu e meus filhos fomos e ainda o somos, não mais por muito tempo, felizes aqui.

Escola vem do grego scholé e do latim schola, que inicialmente está atrelada à noção de lugar onde as pessoas se encontravam para FAZER NADA, para descansar, para estudar, confabular. Escolher aonde seu filho vai crescer é como escolher o que você vai ser quando crescer, se pudesse! Escolheria seu nome próprio, teria tais e tais amigos, tais e tais gostos e preferências. Quando escolhemos algo para nossos filhos, escolhemos inconscientemente algo para nossa criança secreta, aquela que muitas vezes já nem se levanta mais. A escola se destaca neste universo porque além de tudo estamos concedendo a “alguém” o direito de interceder no nosso próprio saber sabido. No nosso próprio ego parrudo, que muitas vezes confunde autoridade com autoritarismo. Não somos deuses de perfeição e ensinamos a amar é falhando, tropeçando nas próprias mazelas, não condenamos nosso colega que fez uma resta acompanhar o curso do rio, ele corre sozinho, como bendizia Guimarães Rosa. A rosa do Rosa ficou ao acesso dos meus filhos por aqui.

Assim, como para minha eterna surpresa, Arnaldo Antunes, Tarsila do Amaral, Van Gogh, Frida Kahlo, Manoel de Barros, Roseana Murray, Chico Buarque, manhãs ao sol sob boa música, café enfrutados de poesia, convite aos pais para serem jovens e lutarem capoeira ao invés de confrontos bélicos. Obrigada, Cristina, Renúsia, Vanessa, Denise, Admilson, Fabyana, Bárbara, Josy, Sr. Lazaro, Claúdia, que limpou com carinho os bumbuns sujos de nossos então bebês. Obrigada, faxineiras, que nos dão o cuidado necessário para que o mundo fique de olhos abertos ao fruto que acabou de cair no chão. Obrigada pelas tarefas difíceis, para noites de cansaço e solidão; obrigada pela estada com os avôs sob as mangueiras e pelas tardes de música clássica no colo das crianças. Agradeço pela paciência que todos vocês tiveram quando meu pai caiu doente e eu não tinha sequer um brilho no olhar para oferecer a meus pequenos, vocês todos, os que citei e não citei, fizeram frente nas dificuldades e souberam incentivar as vitórias, sem sedução barata daquelas que se compra pronta no supermercado sem criatividade e emoção . Agradeço pelos feitos heróicos em sobreviver  cavando arte numa sociedade capitalista e caipira, como é a maior parte da nossa. Encarei essa escolha da escola sozinha enquanto ouvia boatos de conhecidos de que aquele projeto era inseguro demais para as questões atuais onde se luta a ferro e fogo por um lugar ao sol: “pensa bem, Isabella, não é disso tudo que esses meninos precisam, matemática e religião são suficientes”. Ainda bem que não pensei, onde Descartes disse penso, logo existo, pintou Lacan em sua genialidade parafraseando-o: existo onde não penso! Mas quem se atreve? Quem se atreve a tirar os brincos de ouro para escutar o desespero de seus filhos? Quem se atreve a sentar no chão e deixar suja as calças de barro e emoção? Quem se atreve a descer do salto e entrar na roda, fazer ciranda, fazer canção? Uma coisa, caros amigos, é pregar igualdade nas universidades onde estamos assegurados e supostamente protegidos por nossos títulos de PHDeuses, outra é comer diariamente na mesinha baixa de madeira da cantina com nossos empregados e crianças ainda deselegantes no trato com o talher. Uma coisa é fazer discurso sobre analfabetismo e boa educação em cima de um palanque, outra é encarar o encargo, como diz minha amiga e aluna Carolina Adorno, de educar um filho no dia-a-dia sem hipocrisia, sem ruminação. Sentados na calçada, fim da jornada com a cara lavada, sem maquiagem e muitas vezes sem inspiração. Criar Espaços Criativos por entre nossas celas não é tarefa para qualquer um não. E, a cada dia estou mais convencida do quanto um NÃO pode ser doce, ao passo que um SIM pode ser extremamente cruel! Castração é o que nos falta exercer com coragem na vida, isso de que não somos feitos de osso e finalidade apenas, mas sim de palavras e emoção. Educar está na lista dos impossíveis freudianos, junto ao governar e ao psicanalisar, mesmo assim continuamos tentando e sem nenhuma, absolutamente nenhuma, garantia. De novo meu eterno obrigada a esta que artisticamente vem abrindo espaço na cidade de Goiânia para trazer um pouco de luz à escuridão do autístico século XXI.






  "...a sociedade atual está vivendo um momento autista, a nossa sociedade padece há algum tempo de falta de comunicação."




"Precisamos deixar falar o que vem de lá... não, não é fácil, mas é preciso atenção com o fato de que a pulsão de morte é silenciosa! Deixar uma criança perguntar remexe o seu próprio saber, seu próprio querer, porque ela vai falar.  Vai te dar a chave e ai de você se não estiver preparado para o banquete farto de linguagem em operação, que sempre gera equivocação."


“A angústia é o afeto que não engana.”



"Castração é o que nos falta exercer com coragem na vida..."




"Mas quem se atreve? Quem se atreve a tirar os brincos de ouro para escutar o desespero de seus filhos? Quem se atreve a sentar no chão e deixar suja as calças de barro e emoção? Quem se atreve a descer do salto e entrar na roda, fazer ciranda, fazer canção?"





Isabella Castro, psicanalista e mãe dos alunos Davi (2º ano) e Bernardo (4º ano)