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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Lê de novo, professora...

“Quem é leitor nunca está sozinho. O livro
é um grande amigo, companheiro, porque nos escuta
muito. A relação entre o leitor e o livro é uma relação
de escuta também. O texto literário escuta o que o leitor
tem a dizer. Contesto, converso com o texto, dialogo
com o texto, me contraponho ao texto. Embarco no
texto. E quando você descobre esse livro como companhia,
viaja por lugares que nunca imaginou.
 A literatura acontece quando escritor e
leitor se encontram em uma obra que




nunca será editada."
Bartolomeu Campos de Queirós em entrevista à
Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio.



Literatura é arte, conduz o leitor a diferentes mundos causando prazer aos sentidos e alargando a sensibilidade humana.



Um pioneiro investigador dos segredos humanos, Sigmund Freud  tinha ciência das vivências proporcionadas pela literatura. Para o fundador da psicanálise “Os poetas e romancistas são aliados preciosos, e seu testemunho deve ser tido em alta estima pois, eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas com as quais nossa sabedoria escolar não poderia sequer sonhar. Eles são para nós, que não passamos de homens vulgares, mestres no conhecimento da alma, pois se banham em fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência.” Assim, quando o leitor, abre um livro e sai da própria vida para viver as aventuras das personagens , ele conhece mais do outro, de si mesmo e da vida.

  


Só a arte e literatura podem fazer isso. Portanto, a literatura nunca será desnecessária, ao contrário, quanto mais leitores, mais humanismo e humanidade. O romancista e crítico francês, Marcel Proust, em sua obra “No caminho de Swann”, descreve sua função imprescindível:
A verdadeira vida, a vida por fim desvendada e esclarecida, a única vida, por conseguinte realmente vivida é a literatura. (…) Só pela arte, podemos sair de nós, saber o que a outra pessoa vê desse universo que não é o mesmo que o nosso, e cujas paisagens nos teriam ficado tão desconhecidas quanto as que pode haver na lua.




A literatura infantil é, antes de tudo, literatura, e como tal,  também é arte. Não pode trair seu leitor – a criança, com livros meramente educativos, intencionalmente pedagógicos. Ser infantil não significa ser “menor”, ingênuo ou inconsistente, se a obra for assim compreendida,   desconsidera ou subestima o  seu leitor. Palavras e estruturas simplificadas geram perda de literariedade.   A obra literária de qualidade também deve expressar, com criatividade, o mundo, o ser humano e a vida em  textos que ofereçam  plurissignificações e que estejam repletos de sentido para igualmente desenvolverem as potencialidades da condição humana.

  

São muitas as dificuldades dos professores de, anualmente, selecionarem livros literários para comporem a lista de material das escolas. Como fazê-lo? Quais critérios tomar como relevantes?
Antes de tudo, o professor precisa ser, ele mesmo, leitor. Só a partir  da experiência leitora é que desenvolvemos uma variante linguística que nos capacita a identificar uma boa obra literária.
 O livro deve fazer pensar, questionar, compreender, interrogar, surpreender e, mais que tudo, emocionar... Um convite ao encantamento. Depois do contato com a obra, precisamos sair dela diferentes, transformados de alguma forma.

 


 A obra de qualidade se muda para dentro da pessoa,  passa a existir na sua alma.  Com um bom livro em mãos, a criança faz dele seu objeto de desejo.

                         

Na livraria,  os contatos iniciais,  aguçam os sentidos...  A literatura tem de ir além dos aspectos superficiais para extrair sensações ou reações do leitor infantil.

 






Sabemos que a criança não produz  os mesmos significados que os adultos, pois são verdadeiras desconstrutoras do texto, elas estão prontas para ler “contra” a obra, para usá-la de modo extravagante, livres de restrições de entendimentos. Daí a necessidade de que sejam surpreendentes,  que  incitem a perturbação, a estranheza e o susto. Do ponto de vista da criança leitora, todo ato de leitura que possibilite a construção e desconstrução de conceitos, de realidades, é brincadeira, jogo que a atrai e fascina.

  


Na maioria das vezes, o que encontramos são obras previsíveis, com enredos que favorecem a resolução quando, na verdade, é muito mais pertinente privilegiar  enredos  de revelação, súbitos ou inesperados. O importante  é o modo como a história é construída e não do que ela  trata. Aliás, o tema pode ser o mais banal ou corriqueiro, não é a história que faz o livro, mas a forma como se constrói a trama é que torna o livro uma obra de arte. Mais significativo, por exemplo, é um final ambíguo, peculiar, do que um fim  feliz...



A obra verdadeira  traz em si  a beleza.  Vai ao encontro ao que a criança sente e vive, aos seus afetos.  Literatura é para o sentimento, é para a sensibilidade, é para a inteligência do coração. Tem um jeito belo de tratar até a feiura, é por isso que uma obra verdadeira abordando alguma coisa horrível e asquerosa também encanta a criança,  por causa da emoção que causa. Uma boa obra induz à intimidade, à alma das coisas,  e é por isso que ela comove e emociona. Qualquer obra feita na China, Japão, Canadá ou no Brasil – verdadeira –  tem o dom de espelhar a humanidade, aquilo que nos é comum, mesmo na mais tenra idade. E nada mais comum e humano do que o desejo de afeto. Queremos ser felizes, temos medo,  compaixão, ódio, ira, bondade, todas as boas e más paixões  nos habitam. É esse o material da boa literatura.  Expressa, de maneira bela, o que sentimos, o que é humano e por isso alimenta, dá significação e sentido à vida. Faz com que a criança repita muitas e muitas vezes: “Lê de novo, professora...”