Pesquisa

Resultados da pesquisa

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Recomeço

“Nada jamais continua, 
Tudo vai recomeçar!”
Mario Quintana



É muito bom tê-los de volta para, de mãos dadas, recomeçar... Reiniciamos com a disposição e alegria de quem se renova a cada outra vez. Queremos em um abraço de acolhimento, compartilhar a beleza do texto escrito pelo Professor Doutor Severino Antônio, que também nos enlaça no que acreditamos e realizamos:

Uma nova escuta ética e poética da natureza e da existência humana

A morada do homem é o extraordinário.
Heráclito
Do que se trata aqui é de um novo olhar sobre uma physis
tornada de novo viva, de uma tomada de consciência de sua fragilidade ameaçada
 e de uma vontade de medidas protetoras, menos  provenientes de decretos
do que de um amor reeducado para a beleza do mundo.
Jean Biés
Sabemos agora que somos todos poeira de estrelas e que as estrelas são nossos
ancestrais, e que somos irmãos dos animais selvagens e primos das
papoulas dos campos. Compartilhamos a mesma história cósmica.
Seguramos o infinito do universo nas palmas de nossas mãos.
Trin Xuan Thuan







Neste diálogo, em alguns movimentos interligados e interdependentes, que se interpenetram, faremos algumas considerações sobre ética e poesia, com a concepção de que uma ética – que  respira junto com o pensamento ecológico e sistêmico e com a complexidade –  revela-se uma estética da irmandade de todas as coisas, uma poética de reencantamento do mundo. Faremos também algumas sugestões de educação da inteligência e da sensibilidade, para o nascimento desse novo olhar  ético-estético, dessa nova escuta poética da natureza e da existência humana.

Ethos é a morada do homem, o lugar do que diz respeito ao humano, seu espaço próprio. Assim, muitas questões éticas são permanentes. Elas nos indagam: como devemos viver para humanizar mais nossa vida, inacabada, em vir a ser? Que princípios – considerados não apenas como origem, mas também como fundamento e desígnio – estão presentes nas escolhas que fazemos, para constituir o presente e para criar a vida futura?
Elas também nos perguntam sobre as repostas que damos ao que nos cabe fazer, como responsáveis pela existência, em relação aos desafios do tempo em que vivemos, com suas circunstâncias, suas determinações, seus horizontes de possíveis.
Diante da urgência e da gravidade das questões que nos desafiam neste início de século XXI, com o risco de não podemos mais reverter o processo que produz homens partidos e Terra devastada, temos necessidade vital         de uma nova consciência ética, religada à consciência estética e poética.





O TECIDO DE INTERDEPENDÊNCIAS E O CUIDADO AMOROSO
 Esta nova ética funda-se na compreensão da interdependência de tudo que existe, e da unidade da diversidade. Reconhece o real como teia, tecido, tessitura. Reitera que existir é coexistir, viver é conviver. Redescobre imagens mais que milenares, mitopoétiticas, de que tudo está interligado a tudo. E relembra: em todas as coisas, um; em um, todas as coisas.
Esta nova ética alimenta-se do conhecimento da interdependência de todos os seres vivos, assim como de seus processos de auto-organização, tornado possível pelo desenvolvimento das ciências do século XX, principalmente no campo da ecologia, da genética, da bioquímica, da cibernética, dentre outros. Reciprocamente a nova ética alimenta esse conhecimento científico com a reflexão filosófica, com a interpretação de seus sentidos, com o sentimento da irmandade, agora renovado, com uma constelação de imagens que revelam semelhanças, interconexões, convergências e ressonâncias entre as múltiplas dimensões da matéria e da vida.
Esta nova ética pode despertar e desenvolver o sentimento de reverência pela vida, pensado e vivido por Albert Schweitzer. Reverência pela beleza do que existe, do que está sendo destruído, do que precisa ser preservado, do que ainda não existe mas precisa existir. Esta admiração, que é empatia, torna-se uma das dimensões da recriação de sentido que pode nos salvar da devastação, assim como nos ajudar na recriação da existência como obra de arte, pessoal e coletiva, como poema de que somos autores e co-autores.
Essa nova ética pertence a uma concepção de existência. Revela-se como práxis e poiesis. Práxis porque atividade transformadora da realidade, sem dissociar o teórico e o prático. Poiesis porque ação criadora, nas várias dimensões da vida cotidiana, na filosofia, na ciência, na arte. Como concepção, a ética não se faz apenas de ideias, de conceitos, de raciocínios lógicos. Também se faz da percepção dos sujeitos, do que é sentido, do que é imaginado, e das múltiplas interpretações da história vivida.
Assim, a nova ética precisa de linguagem, de imagens, de metáforas – tanto  para pensar-se como para expressar-se. Precisa de um logos. O logos, como lembra Victor Frankl, é muito mais vasto e profundo do que a lógica. É também palavra, discurso, estudo, razão de ser. Dessa maneira, o logos da nova ética precisa ser encarnado. Para isso, é necessária uma conversão poética, estética, de inteligência e de sensibilidade.
Na nova concepção ética, ao primado epistemológico do contexto, do tecido de interações e interligações, corresponde o primado existencial do cuidado com a vida, com a inteireza do ser humano, assim como de todas as outras formas de vida, e mesmo da matéria do mundo.
Esse cuidado é um olhar amoroso, de empatia. É uma escuta poética, que amorosamente considera as múltiplas vozes que compõem a tessitura da realidade.
Para isso é preciso poesia. Com seus poderes de linguagem e pensamento, ela pode nos ajudar no trabalho de reencantamento, de empatia, de cuidado, de amorosidade. Sobre a experiência poética, Morin considera : A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. Revela que habitamos a Terra não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade –, mas também poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível. (apud Severino Antônio, 2009, p. 117)
Esta ética é uma antropoética, como também escreve Morin, na medida em que se funda no pertencimento de cada sujeito à espécie inteira, à humanidade. Torna presente entre nós a tese de Terencio, de que somos homens, e nada do que é humano nos é estranho ou indiferente. No entanto, é mais do que uma antropoética, porque religa o homem à natureza, fundando-se também no pertencimento ao Cosmos. A própria concepção de cidadania terrena, em uma era planetária, já nos abre para dimensões maiores do que a apenas humana.
No passado, para nos desenvolvermos historicamente como humanidade, precisamos nos separar da natureza. Agora, para preservarmos a humanidade, e para humanizarmos a história, precisamos nos reconciliar com a natureza. Precisamos de uma ética de religação.
Albert Schweitzer, uma das fontes dessa nova ética, reiteradamente afirmava o cuidado amoroso, mesmo com as mínimas formas de vida, as menos percebidas, como em seu exemplo de salvar uma minhoca que secaria ao sol, sem conseguir desvirar-se, ou salvar os insetos que se queimariam na chama de uma vela, se as janelas ficassem abertas para noite.
Esta ética do cuidado amoroso tem muitas fontes. Algumas têm ressonâncias profundas na vida presente, como Francisco de Assis, sua irmandade com todas as formas de existência, sua celebração poética da natureza. Em outras tradições, alimenta-se também da compaixão, como em  Buda, que certa vez caminhou muitos quilômetros para devolver algumas formigas ao seu lugar de origem. Estes dois nomes evocam muitos outros, de diferentes linhagens filosóficas e religiosas.
Hoje, essa ética se configura como necessidade de sobrevivência da espécie humana, e também como redenção do sofrimento da natureza gravemente ameaçada.









EDUCAR A INTELIGÊNCIA, EDUCAR A SENSIBILIDADE
Esta nova ética precisa do questionamento crítico e, ainda mais, do pertencimento afetivo, de uma empatia amorosa com o Cosmos, a natureza, a humanidade.
Reconhecer o pertencimento à Terra e o cuidado amoroso como vitalmente necessários não significa abandonar a racionalidade. Também não significa inverter a dominação do intelectivo sobre o sensitivo, em uma nova dicotomia. Trata-se de religação entre inteligência e sensibilidade,  que transforma uma e outra.  Essa religação é semelhante a outras reconciliações, como entre ciência e natureza, no campo do conhecimento científico.
A consciência crítica é necessária para compreender e superar a mentalidade que reduz a natureza à matéria prima para ser explorada, que é a mesma mentalidade que reduz o ser humano à mão de obra a ser espoliada. No entanto, para nos libertarmos desse modo predominante de ver e de viver, que desumaniza o homem e desnatura a natureza, em que nossa sociedade está organizada, desde a revolução industrial e o início da sociedade capitalista, é preciso mais do que a criticidade: é necessário despertar e desenvolver  a empatia, a identificação afetiva, a solidariedade amorosa, a admiração sensível – em relação à espécie humana e às várias formas de vida planetária.

Empatia: sentir com o outro, sentir como o outro, reconhecer-se no outro, fazer ao outro o que gostaríamos de que nos fosse feito.  Uma nova ética: da empatia, da compaixão, do cuidado. Entretecida de amorosidade, admira a semelhança na diferença, e reciprocamente admira a diversidade na unidade.
Uma ética de sensibilização. Sem sensibilização, raramente podem ser feitas mudanças de concepção e de prática de existência. O que move a inteligência, o que nos move – mote, motor, motivo – é a emoção, o emotivo.
Ao longo do século XX, raras imagens moveram tanto a sensibilidade e a inteligência coletivas como a foto do nascer da Terra, tirada a partir do chão da lua. Esta foto, que precisou de milênios para ser possível, ajudou a mudar a imagem que a humanidade faz de si mesma, a consciência e o sentimento que temos de nós e da nossa vida neste planeta azulado, em um canto da Via Láctea.
A nova ética traz o amor do que consideramos verdadeiro e necessário, o eros que pode libertar a inteligência da instrumentalização que a desfigura e da fragmentação que a dilacera. Assim, fazendo a anamnese do que está inscrito em sua etimologia, a inteligência se reconhece como inte-legere, ler entre as linhas.
A nova ética representa uma das travessias em que alargamos as margens da razão, recriando-a como razão sensível, razão criativa, razão poética.
Como escrevemos ainda há pouco, a nova ética tem necessidade de reeducar as emoções. Nosso corpo emocional também está desfigurado e fragmentado pela solidão do individualismo da era burguesa, assim como está embrutecido pelas competições vertiginosas e vorazes, e pelos cantos de sereias multimidiáticas da publicidade e do consumismo.
Sem a educação do sensível – da percepção, das emoções, da imaginação – não transformaremos nossa relação com o mundo e com os outros.
A consciência crítica é necessária, mas não é suficiente. Para uma nova compreensão ética, precisamos de consciência sensível e criadora, capaz de admiração, de empatia, de renovado amor à vida, à Terra, à espécie humana.
Assim, além do distanciamento crítico, é necessário o pertencimento amoroso. Sem esse sentimento de pertencer à humanidade, à  natureza, ao Cosmos, não participaremos do nascimento do novo olhar, da nova escuta, da nova ética do cuidado por todas as formas de vida, interligadas e interdependentes.







CONSIDERAÇÕES DE PASSAGEM
 Hegel, no prefácio de  Princípios da Filosofia do Direito, escreve uma passagem síntese: Quando a Filosofia chega com a sua luz crepuscular a um mundo já a anoitecer, é quando uma manifestação de vida está prestes a findar. Não vem a Filosofia para rejuvenescê-la, mas apenas para reconhecê-la. Quando as sombras da noite começam a cair é que levanta vôo o pássaro de Minerva.
 Quanto a nós, nesse início de século XXI, com as ameaças – sem  precedentes na história de civilização – de destruição planetária, precisamos de filosofias que nos rejuvenesçam, que nos ajudem a religar os fios da nossa vida.
Precisamos de renascimentos. Sem nova ética, sem beleza, sem poesia, não haverá mais vôos das corujas e das outras aves, nem haverá mais aves.
Precisamos de esperanças, do que Paulo Freire chamou de encontros ativos de homens solidários, que se educam e se libertam mutuamente, em diálogo, mediados pelo mundo e pela história.
Precisamos de utopias, no sentido de  Ernst Bloch: o que ainda não existe, mas nos move, com seus campos de energia, a fazer transformações históricas e sociais, a recriar a existência.
 Precisamos de sabedoria prática – ética, estética, poética. Para nós, que vivemos nestes dias, para os que nascem agora, para os que ainda não nasceram.Prigogine, indagado sobre a nova escuta poética da natureza e do conhecimento, que ajudou a constituir a partir da Química e da Física, respondeu: Com a obra de arte, estamos no coração de minha aposta. Porque, se o pêndulo era o símbolo do universo determinista, eu diria que a obra de arte é o símbolo do universo que vemos hoje. Se você tomar uma fuga de Bach, ela obedece a regras, mas há também passagens inesperadas; são “bifurcações”. É essa mistura de determinismo e de imprevisibilidade que constitui sua natureza e seu encanto. (2002,p.69-70)
Guimarães Rosa escreveu que as coisas querem ser música.
Hoje, mais do que em qualquer outra época, somos chamados a cuidar da música – a mesma que cuida de nós.
Ainda há tempo. Não muito, mas ainda é possível mudar a vida, recriar a música.
Severino Antônio
Professor da UNISAL-SP e FATEC/SP




Assim, energizados pelas palavras amorosas do Professor Severino Antônio, vamos fazer cada vez melhor a nossa escola, a nossa vida. Sejam todos bem-vindos! 
                                                                           
                                   Direção Pedagógica.